segunda-feira, 15 de julho de 2013

exercício

- Perdemos a guerra, camarada.
- Mas do que está a falar? Que eu saiba, ainda ontem vinha nos jornais que sim, ganhámos a guerra.
-Sim, mas perdemo-la. Não falo dos inimigos que jazem, nem dos nossos que por lá ficaram. Perdemo-la, ponto. É o que sinto.
- Mas do que está a falar? Que eu saiba, ainda ontem vinham nas nuvens presságios de bom tempo. Aquele laranja fim-de-tarde só pode indicar amor aos fortes que, como nós, vencem as guerras e trazem para casa as cicatrizes para remendar. Vai fazer bom tempo e isso só é já ganhar, não perder. Anime-se, camarada!
- Pois o que eu sei, sem ter ido à guerra, é que a guerra veio até nós das formas mais inesperadas. Aqui fiquei neste banco desde que tudo começou e não há meio de me descolar desta praça. Mas a verdade é que perdemos. Perdemos e sabêmo-lo, mas calamos.
- Mas do que está a falar? Então não ouve as gentes, não lê os jornais, não contempla as nuvens? A guerra terminou e nós vencemos, com muita facilidade até. Somos mais fortes do que pensamos. Não seja assim, camarada. Anime-se e felicite os que aí vêm.
- Se eu me escoar pelo ralo deste firmamento...
- Mas do que está a falar, camarada?
- Era bom se me fizesse vento e o mundo só soubesse o meu nome em segredo.
- Bem, vejo que amanhece... quero dizer, anoitece. A tarde vai longa e ainda me faltam uns quilómetros para a redenção cívica diária. Força, camarada! Até outro dia.
- Ideal seria não ter frases com término. Isso sim, daria romance. E depois os passos que trazem estes dias secos, estes passos dolorosos de tornozelos arranhados, carcomidos, ensaguentados, com calos e bolhas... Ideal seria não ter pés e pensar com eles, mesmo assim. Chamem-lhe flutuar, mas queria esse tacto de manhã sempre a ser meu. Com um arrulhar dúbio de pombos e janelas entreabertas. Isso e mais até, não fosse termos perdido esta estúpida guerra. Maldito calendário, malditas festividades, malditos anos seguidos em fila... Logo este mais maldito, por termos perdido a guerra.
-Mas do que está a falar? Que eu saiba não houve qualquer guerra.

domingo, 30 de junho de 2013

Julius

Venho no comboio das nove.

Acordo e o guincho profundo desta multidão emparelhada silva-me aos ouvidos. Rápido, um gole de água da torneira, na sua maciez tépida de comiseração. Já é tempo de me abster das vontades, o que digo cai em saco roto, já penso que minto. Talvez perguntem "para onde foi aquele estranho do segundo andar com tão pouco para fazer"? Dentro da minha cabeça ainda soa a voz dessa questão, mas ninguém a pronuncia.

Agora corro ao longo das sebes e para lá disso só o tapete sórdido das queimadas de verão. Num jeito infantil espreito o calor em ondas, mas já não sei quem sou ou como me chamo. Já não sei se serei eu o calor a ondular na incisão demoníaca de um raio de sol. O corte cego de bisturi a baptizar-me com pompa de alma, este olhar submerso tão sem raciocínio. Sou tarde, sol e calor. Cheguei no comboio das nove ao silvar dos campos abertos em ferro para ele. Agora as pessoas escoam-se lânguidas sem me verem nitidamente, correm de volta às casas frescas, inundam-se de água suja só para me cumprimentar.

Enfim, cresço e amo a terra em beijos. Vim para ficar.

terça-feira, 25 de junho de 2013

3º dia

Ao terceiro acordou tarde.

Tinha um bilhete na mesa de cabeceira. Puxou dos óculos e leu-o em voz baixa. Dizia apenas: "Quem és?" em maiúsculas ridículas. Voltou a colocá-lo onde o achara, intacto. Não iria agora perder tempo com missivas idiotas. Fazia calor e apetecia fugir. Por isso abriu a janela e atirou à vizinha um rasgado bom-dia. Sem ecos. A serra permanecia muda.

Meses mais tardes, a mesma caligrafia. Desta vez, na montra de uma loja de velharias. Entrou, sem saber bem a razão, apenas olhou o suficiente para logo sentir o estômago revolto, o azedo do pó incrustado na língua. Despediu um boa-tarde apressado. Mas em vão, o balcão permanecia vazio.

Ainda agora fechara na mão duas pétalas púrpura de rosa. Comprimira-as para lhes chegar ao sumo. Era tudo o quanto tinha: o punho cerrado e a magreza do rosto. Por mais que tentasse identificar os astros na profundidade da cúpula celeste ainda lhe vinha à memória apenas o nome daquilo que não era. De todo, permanecia calado, e apenas um leve zumbido subia da sua boca. A tarde mais perfeita, o sonho mais vazio, os olhos mais fechados na concavidade forçada de um adeus, tudo isso lhe era ausente.

O restante fazia barulho, e isso irritava-o. Talvez tal explicasse a pedra tumular usada como vestimenta, ou barreira ao toque puritano do zéfiro cantante.

"O meu olhar é textura." Lia-se à porta do bordel. Isso não encerrava filosofia alguma.

sábado, 18 de maio de 2013

oh que diabo

Oh diabo, que hoje era o teu dia de anos e ainda nem te tinha escrito o postal do costume!

Oh diabo, a coisa insólita a mover-se larva incandescente dentro do magma morno da era glacial que ainda não findou! Oh coisa sombria, o aperto de intestino quando nos sua a testa e há um rumor de chuva no ar e... ah, estala o foguete que nós nunca aceitáramos ser da nossa freguesia apenas porque o iam lançar do alto daquele eucaliptal, já longe da extensão dos nossos dedos e da nossa compostura de nome atarracado de terra só no marasmo de um monte.

Oh, fantasia de Carlos Filipe Emanuel Ribeiro!

Oh, destino de burro escorraçado ao som de Schubert, sonata número vinte, andantino!

Oh, maledicência de bruxas de sextas-feiras nocturnas de meia rendada e cigarrilha apertada no amarelo cosido aos dentes!

Oh, vil memória, sem brumas nem egrégios avós, que só não me traz o dia dos teus anos sem grão na fotografia! Tudo, tudo menos isso, os teus anos com o teu bolo acetinado contra os queixos já cheios de fios de ovos quanto baste e o meu postal, com o verso que tanto me custou destilar da tinta permanente já sem caneta, o meu postal esquecido debaixo da cadeira onde agora se deitou solene e despreocupado o cão. Não ladra, nem recita o que lhe vai no peito. Antes acho que nos escuta, atento, e chora para dentro, por não ter quem lhe escreva postais destes, gastos com palavras tão antigas escritas ainda há duas horas.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Alto dos Moinhos

Ouvi (ouviu?) ao longe, no fundo da atmosfera, coros. Renascentista prosseguiu (prossegui?) pela estrada molhada julgando estar perto do fim, aparições ao cair da noite, anjos que nos (me?) ecoam nos ouvidos, a torrente de espectros, nuvens satânicas ou emanações sulfúricas a dar de roer ao dente, mas celeste o contentamento, divina a golfada do vento húmido. Coros. Ignomínia, maravilha dos coros. Se fosse Palestrina, se fosse... talvez seja. Talvez hoje Palestrina, ou Duarte Lobo tardio, ou Magalhães e o fim do renascimento e das catedrais. O fim pintado de gomos de luz no escuro. Calmo caminho e outra vez o ressoar na maresia. Coros. Ou o ruído difuso do comboio que canta, asa de aço na noite, relincho mavioso, a filarmonia do ferro eléctrico pujante.

E ao subir a rua deparo-me com o oceano que cai em maré vermelha. Afinal, sereias aladas que debicam marinheiros, afinal neve derretida em lama da minha alma, afinal vós mentistes. O eco do meu intento, a vontade julgada viva, até mesmo escutada em vislumbre, era um último aceno, a despedida ao adepto. Tinha acabado o jogo do Benfica.

sábado, 30 de março de 2013

deitado, o dia de viés


As coisas que se não diriam ao redentor quebranto da tarde. Sentes nesse
          cheiro de almoço
a manhã repleta de pólen e chilreada
                                vinda com o tempo conjuntivo
               finito de infinitivos,
       não sem antes um golpe seco
                       de harmonia complacente, pela janela
                                                    defronte da janela
  olhando, rígido e frio, o grito de paisagem na janela

Outrora, porém,
 se fôssemos dia inteiro de feriado
   com a sorte de sol na lapela
     correríamos mais rente ao telhado
       de sorriso posto no lábio frouxo, olhar
          de cal branca com sol nela,
            muro quente no inverno derradeiro de uma era
              com pulsações titubeantes, respirar que gagueja
                quando o suco de um beijo nos inflama.

sexta-feira, 29 de março de 2013

ridículo desnudar da têmpora morta

Se ouvir o ruído de alguém, no quarto ao lado; bem, choro.

Se me vir reflectido no espelho em tom atravessado; calo o pontilhismo percepcionado do viver dia-a-dia com cara vaga e buraco existencial na ponta dos dedos. Furo calos, rio. Furo olhos, rio. Furo tempos, morro.

Se beber das águas do Lete; beber e a indigestão não passar como passaria com águas do Mondego, enxergarei então, supremo, existências de mim espectrais, com jocosos semblantes, ou patéticos, porque o tragicómico revela-se barato, enformado em lata, descartável. Sou eu em pedacinhos, um aborto cuspido na parede branca. E eis com que arte, com que rigor, com que sobriedade a mancha calma se dissolve pela tarde, escorrendo ao som calmo de um andante de Bach pelas frinchas do rodapé.

Se Virginia não souber, nunca, o que é a mancha na parede. Se os dias forem dessa mancha como dela, todos. O desvelo dado ao insensível desconhecido, mais terno que todos os anteriores carinhos, esse da aproximação intelectual pela divagação, pela supressão dos descontínuo do chão e dos caminhos de terra batida. Sem passos, sem desígnios, vamo-nos acercando da mancha como de nós, sem lhe alcançarmos âmago algum, essência nenhuma de presenças, não mais do que a nossa inútil dinâmica de alma.

Existe, na noite, a perseguição exangue de um corpo que se soube tomado outrora. Pertenceu-nos esse lugar que julgáramos ocupado à nascença, mas num outro passado, numa saudade que foi de outrém mas que hoje nos puxa a pele do medo, do nosso medo, dilatado em veias e pulsões de febre e espuma. Coisa nossa.

domingo, 24 de março de 2013

chopin. opus 70. número 3.

Entrecortou respirações finas com uma lengalenga antiga. Passados escondidos em jogos de meninas, assassinatos permeados pela pleura do mito comum. E eu rasguei-lhe a linha de pensamento. Não hoje. Era tarde e pensar doía, sem respirar porém, porque me sabia übermensch mas só para mudar porcas e parafusos, para dar banhos a gatos e para suster a respiração. Isso, e nada mais, fazia de mim o herói do Largo do Conde Barão, que não era largo, nem o conde era barão.

Ora, propus o enlevo. Um filme com actores já mortos para reconfortar afectos perdidos. Mas alguém se suicidara negligentemente, anteontem. Creio que tinha sido a vizinha de cima; não sabia sequer que tinha vizinha. Penso que confundiu com muita intenção as caixas de medicamentos, ou então correu com bastante vigor, com demasiado vigor, em direcção ao desembocar aberto de uma janela nocturna de sétimo andar. Isso dera-me pouco em que pensar, afinal já sabia há muito que todo o suicídio era uma evidência de involuntariedade. Acontecia, era fenómeno registado pelo olho diagnóstico do médico e da transeunte  testemunha, espectadora pacífica de um seu desenrolar das coisas, pouco fascinada com mortes alheias.
Mas a vizinha, com ou sem espuma na boca, ou ossos esmigalhados, impediu-me de ver o filme e isso fixou-se-me no crânio como se tivesse dormido demasiado tempo e se me tivessem colado os miolos à base côncava da alma. Merda para a correlação forçada da existência. Nós com os outros, nós e os outros; nós bem sentados, discorrendo em ricos e pujantes diálogos que o dia fora de equinócio sem primavera e, de repente, há alguém que sem se voluntariar para dar a mão a Caronte, nos fode a alegria soalheira de nos fodermos para o mundo.

Oh, esqueci-me. Não há, recentemente, Schopenhauer editado em português de Portugal. Quero dizer, o "Mundo como Vontade e Representação" não existe. Ninguém quer ser misantrópico. Ninguém se quer extrair do abraço carnal que nos liga desde o enganchado genético uns aos outros (que outros? na rua vejo não tanto mais mas menos de mim e de tempo em que me sei eu). Por isso a alopécia permite-me cuspir na cara do próximo pobre andante que me consumir o olhar no passeio; inaugurar luso de uma obsoleta ode ao desencantamento de existir; irónicas elegias ao fedor de merda quente com que me levanto todos os dias, me coço enigmaticamente, e me deito em seguida, rangendo dentes ou cantarolando aquela passagem da valsa de Chopin que me lembra um abandonar de adeuses sorridentes.

segunda-feira, 18 de março de 2013

opus 117 nº2


Olha aí, plácido, a poesia no vão de escada.

Se me voltei a tempo de soerguer peneiras ante sois cruéis, evitei o olhar persistente de um enteado da vida.

Cumprir a obrigação, rolha estúpida de um cisma, ser sempre folha branca.

Baixinho, os três intermezzi. Baixinho. Calado murmúrio. Pode ser o Glenn Gould, baixinho. Paro então no segundo, sinto-me tirar os sapatos e contemplo uma janela que o enquadramento não alcança, atrás um fundo branco, eu sentado num divã invisível, e calo o ofegar, boca entreaberta. Olho o que está além. Olho fora do enquadramento. Olho o segundo intermezzo Op.117. Olho os dedos do Gould mais ligeiros do que seria de esperar, mas é o Gould, porra!, dele nada é de esperar, porque tudo. Olho mas não contemplo, a câmara sai de mim e passa para a rua, já não sou eu no ecrã dentro dos meus olhos. Olho em si mesmas as sobras do eterno, para lá do enquadramento, o inevitável mutável estrangulamento de um outro real, convexo, paralítico em sons e vazios. Olho onde estava esse olhar. Se falei baixo os vizinhos ouviram e não notaram que era em si bemol menor. Para a merda com os vizinhos. Rasgaram a foto. Pararam o Gould quando descobriram, sorriso putrefacto, incerto cadáver.

Ou isso, ou aquilo; ou isto, ou aquilo; de qualquer forma o ser e o seu contrário não existem. Nada. Arrepender-te-às. Sempre.

domingo, 17 de março de 2013

lacrimae rerum

Vi, boca fechada, o ambulante cercar das coisas. Houve talvez, mais isso do que tudo, um sonho entre os vivos, uma alucinação. E já não sei bem quando, fechei-me no quarto, corri a cortina e convoquei um lucífero ser sem nome.

Ouve, espera caminhante. Coxo como amanhã, o ter sem forma de passos. O passeio irregular tem formas de corpos adjacentes, criam circunferências infinitas do que resta de nós. Penso que cristalizam na morte. E tu caminhante vais neles, contra eles, sobre eles, em passo acelerado e desigual, sem medo de gentes, de rostos, de avisos, com cara de júbilo. Será essa a luz do louco?

Um fin de siècle traz consigo um certo rumor. Precipita-se nos ouvidos, anjo endemoninhado, cada vez mais alto. Sangue latente em ebulição desregrada, destino cruzado com o do eterno. Nós, que lhe tínhamos nos lábios o nome de branco murmúrio, nós que lhe ouvíramos condenações em surdez, nós que lhe votámos sonetos de esquecimento. Temos agora, cingida ao peito, a chicotada do fatal como carne viva, se a soubéssemos. Brota, sem o sabermos, novo líquido dourado da tez final do nosso tempo. E se somos a soma destes anos, destes circunvagares criminosos, e se somos abortados a potência de um outro crer vital, que crise é esta de olhos vertidos e vozes rompidas? Como planetas, nós e os outros, todos gigantes. Como flora divina a brotar dos dedos sem intenção, respiramos compassadamente, sem gritos o estertor, o odor fechado do vazio.

sábado, 16 de março de 2013

Oculum pro oculo


Foste ríspido ao gritar e eu vazei-te um olho.

Algures, escondido nas gavetas da secretária velha está a recordação vazia de um jogo infame. Por cima de um céu de chumbo retine mercúrio ao sol, escorre pelas nossas bocas, humedece corações de senhoras empedernidas, e desfaz, com dedos enlevados, cérebros sozinhos, regurgitações profícuas que nos dá o quotidiano.

Eu vi-te sem sombra, ou olhei o espelho e julguei-me subitamente nevoeiro transposto. Do túmulo recôndito da hora sucede um cheiro forte de maresia e de noivas mortas. Beijos plácidos na manhã, a uma loucura um ramo de flores. Quando damos por nós, eu por ti, e tu por mim, está Rousseau de joelhos, chora e no seu ranho escreve que perdeu a fé na besta natural.

Chamaste-me um nome; nefelibata, creio. Gritaste-me: "Filho da puta!". Acho que vai dar ao mesmo, e as redundâncias sempre me estreitaram o espírito, trucidaram a passividade anã que me anima, e respondi-te.

Foste ríspido ao gritar e eu vazei-te um olho.

sexta-feira, 15 de março de 2013

sub-reptício lunar ou Metropolis Unveiled


Hoje como ontem, não foi o futuro suspenso na ponta dos dedos, as esfinges de medo colapsadas em areia sobre a multidão. Foi talvez o enigmático sentido do dever amoroso, de nos benzermos diariamente em certezas nossas, amores-próprios evidentes. Não hoje, como ontem, mas hoje e ontem, eu cego e difuso, à luz da tarde. Um sem fim de passos e eu sentado, sem desvelos da vida diária. Sofrer torna-se respirar lentamente, baixinho. Pensar nessa respiração como nossa ou de outrém. Devagar encher os poros subluminosos de ar enrouquecido, gasto, rarefeito mas pesado, fino e sobretudo entediante. Não haver forma de não respirar, e portanto, não ser. Evidentemente.

Não sei o que me traz a ser o eu como fui. Hoje tenho portas fechadas à minha volta.

Em animada cavaqueira com o Fritz Lang, num dialecto supra-temporal, concordei com ele. "Sim, sim. É isso!" Decidiu dar a minha cara a um monstro mecânico, e eu disse "Sim, sim. É isso!", meio orgulhoso, numa adrenalina mal contida, mas também meio entediado por saber-me cara e monstro nessa cara, não sei em que filme, ou em que futuro, ou em que sonho.O Fritz pôs-me nessa tina gigante, com cordões de aço que nos cobrem em três pontos, e de súbito lembrei-me de Kierkegaard, não sei porquê. Andava a ler o "Ou-Ou" e aparecia uma referência a um deus do mal aprisionado pelas tripas do filho em três pontos: ombros,  cintura e joelhos, se bem me lembro. Senti-me esse deus do mal, Loke, sob uma serpente gigante que babava veneno descontroladamente. Mas o Fritz, vendo a minha expressão meio sumida, um tédio mais forte que todos os tédios, animou-me, "Ouve, não dói nada, e vais ter mais de ti do que alguém teve." Eu chorei sem saber que chorava, talvez fosse a horizontalidade e o síndrome dos fluxos que precipitaram as pequenas lágrimas que se escaparam pelo rosto abaixo. Não me sabia melhor ou pior ali dentro, naquela cápsula de devires e desejos. Tanta vida a ser criada, e só queria que mais uma não fosse a minha.

quinta-feira, 14 de março de 2013

ilusão ornitológica


Inebriado pelo voo disforme de dois pássaros no azul matinal.

In media res. Metade da história já passou, e agora que se segue? Um pássaro come o outro, debica-lhe as penas, a fina camada de carne, os ossinhos quebradiços. Ou então sussurra-lhe em canto a insurreição. Matemos o humano que nos segue, alla hitchcock, com esvoaçares doidos de volta da sua cabeça de laca e dos seus braços arquedos como jaula, uma defesa que é prisão, ou então arranquemos-lhe os olhos, parte submissa e volúvel do corpo, interminavelmente  lânguida, apetecivelmente debicável e deglutível.

Sim, passarinhos, ou tormentos divinatórios do dia que vem. Sim, uma sacrílega oferenda, desse modo, à natureza. Que maior desejo, que melhor dádiva, que maior regozijo? Todo eu me dou em assentimento à chuva em hecatombe de asas.

quarta-feira, 13 de março de 2013

a fachada


Foi num êxtase pacífico que remexi nos líquidos alquímicos que fumegavam há tempos nas minhas crenças. Com pouco cuidado, mas mais do que deveria alguma vez ter tido, nomeei-os como forças divinas, resolutas, donas de dinâmicas intangíveis, senhoras do metamorfismo sanguinário, da fluidez de alma que nos contamina os olhos de veias escuras e anseios nítidos de procura e irredenção.

Sozinho, caminhei a passo inebriado pelas fendas da noite. Tocar os muros das casas era passar devagar os dedos por mares fixos, ondulações cinzentas, correntes vagantes de sonambulismo. Um vento perene dava-lhes a forma de corpos em contracção, enrugando-se num aperto derradeiro, contra a morte, um beijo cálido e húmido num vidro do comboio. Marca indelével da passagem, ficou esse beijo também escrito na paisagem onde se contemplavam, caídas, criaturas dormentes com o aspecto terreno da espera.

Acordar, abandonado, com as flutuações ensimesmadas da roupa na varanda. Um rectângulo de sol na janela e um baile contínuo, apego cego, jogando sombras alheadas e inocentes. Vi do mundo um refluxo em linha contínua. Vi do tempo a marca de Caim, ou talvez o ignóbil sentido do eterno. Entre bocados de mim, o desfasado de uma insónia, a obtusidade de um esvaimento. Sopro perpétuo, seiva escorrida, a brotar das frinchas de uma porta secreta, a inflamar o peito com soluços vãos e medos. Derradeiros elementos nulos numa fachada. Dentro, como fora, uma subtil e calada acumulação de nadas.

terça-feira, 12 de março de 2013

Era em ré menor


Vinha, de vez em quando, uma dor de cabeça subtil. Uma estranha visita, um pesadelo  talvez, com a sensação dormente de um peso denso na nuca. Não ouvi ninguém dizer que fosse caso raro. Por isso concordei em ceder-lhe o sofá da sala e um pequeno-almoço mais condimentado que o habitual. Não falámos muito, a invasão é uma coisa estranha. Recordo que nos sentámos costas contra costas e devagar murmurámos palavras hediondas. Não foram só asneiras, mas também expressões e rimas com um suco inane de despudor. Se nos rimos ou não, não me lembro. Sei, porém, que lhe senti, da dor, o abraço quente contaminante de júbilo ou febre. Isso e uma amnésia prematura ainda fazem de mim o anónimo tossicador do quinto direito ou do segundo esquerdo que sou hoje.

Soube bem entranhar fundo o poderio da matéria. Doloroso, mas enfim, ressuscitante.

A curva horrível das costas não me alegra mais que o inconveniente no meio da rua. A criança que se mija, o sem-abrigo que caga odes profundas, epopeias a um povo na ruína, ali mesmo de fronte das gentes com narinas e com gavetas de cheiros nessas narinas. Mas eu sorri-lhe e ele respondeu-me com cuspo. Agradeço a normalidade de um dia-a-dia, um aperto de mãos como de almas sujas. Caminho em retrógrado e assobio uma fuga de Bach (talvez a Oferenda Musical, talvez).

segunda-feira, 11 de março de 2013

amor fati II

Ensaiei os passos. Interiormente. Uma quadra de rima solta que não se veio a concretizar. Talvez tudo não passasse disso, dessa quadra que nos persegue, versos como espinhos ou como carne em sangue com espinhos que lhe brotam na raiz.

Inspirei fundo aquilo que parecia ser o húmido ressudar do tempo. Não me lembro bem que cheiros lhe absorvi, entrei em profundo adormecimento. Se o contornar da esquina fosse este, teria em mim vidas gigantes e sonoras a caberem-me nas palmas das mãos. Antes, porém, que o dia amanhecesse saber-me-ia, por fim, cadáver. Ou coisa outra. Mas não isto.

domingo, 10 de março de 2013

When I am laid in earth

Quando for grande e tiver o fascínio do decadente raiado nos dentes, a volúpia louca do ridículo, chamar-te-ei de novo ao convento das iniquidades. Dançaremos em rodopios antigos, de quem não sabe a quem reza, apenas indo de corpo em corpo como espírito inquieto, a comichão latente de um desejo.

Quando tiver de mim vísceras lavadas, a secar no meu estendal, serei perpétuo, a manhã afora longe. Cuidarei de beijar plantas com a suavidade de um louco de cheiros, perfumes do estio de nós, suores plácidos e azuis que nos dão ao rosto o ar do concreto haver do sangue.

Quando inútil me souber de todo já não restará mais do que fria comiseração, um ruído inaudível, um trepidar que rói ossos devagar mas os atraiçoa, com pó de pó, de nós sempre o mesmo. Um rio que corre daquela rua em cascata e me abraça aqui em baixo, ajoelhado em apoteose de rancor. Baixo o murmúrio do tempo, em que cristãos, fôramos da sede a mais firme convicção.

sábado, 9 de março de 2013

skatós/éskhatos

Cheirou-me ao incenso do ridículo. Quando olhei soube que o que tinha pago para ver e ouvir era merda.

Fiquei. Ouvi dizer a um sábio qualquer que comer merda também era desígnio divino. Acabava por ser sempre assim todos os dias. Por isso, diletante das paixões que me tornavam um convicto intelectual versado em bichanices e contos para curar conas secas, permaneci sentado, no ruge-ruge que um coçar de nádegas condescende.

Sabia que estava condenado a ser execrado, excomungado, ostracizado e enforcado em praça pública. Talvez me cortassem os tomates, se os tivesse, com um puxar pelo pedúnculo com mãos de menina inocente, assim ritualizada nos iniciáticos eventos de uma dona de casa. Talvez me espetassem uma horrenda courgete pelo canal lacrimal, repuxando da pútrida frieza a dúctil compaixão, com a salutar absolvição vitamínica que contempla o ser vegetal.

Regurgitei devagarinho, dando-me ao prazer de mascar pedacinhos vagos de mim, pedacinhos da inércia com que os rios se espelham de manhã e que o sol frouxo da primavera descobre lentamente, a inútil vontade de chegar, esse vento calmo que cheira a lixo, ao adocicado do podre contaminar, às revelações abraãmicas da exaltação do fim dos tempos, tudo numa gaveta com cheiro a peúgas usadas consecutivamente.

Escatológico refere-se tanto à merda como ao apocalipse. Pode ser um apocalipse de merda, ou uma merda de apocalipse, quem sabe? No meu reduto, sou suficientemente deus para me abrir com discricionariedade, sem acertar constituições com os três estados. Comerei de mim em substância, e ignóbil recolherei na concha pedaços do que de pristino cai dos ventres maternos em expulsão.

sexta-feira, 8 de março de 2013

amor fati


Acordara com o som da voz indolente de um alentejano a murmurar o título de Walter Benjamin com sotaque carregado. "A Obrã de Arti na Erã da Reprodutibilidáde Técnicã"! E vezes sem conta a voz lhe trouxera o título à cabeça durante o dia. Pediu a uma conhecida, alentejana, que lhe dissesse também o título do ensaio de Benjamin com sotaque. Ela achou que ele estava simplesmente a gozar com as suas origens e virou-lhe costas com um idiossincrático orgulho meridional nesse gesto.

Estivera a ouvir uma vez mais o concerto de Schumann para piano e orquestra, e debatera as qualidades e defeitos entre Schumann e Chopin. Definitivamente Schumann seria o seu predilecto, para sempre. Os contornos do vazio na sua obra ultrapassavam qualquer momento histórico, qualquer laivo romântico de passionalidade. Schumann era a loucura contemporânea em potência, um devir mais obscuro do que todos os outros devires, o incerto, o derradeiro não crer em nada, esperar tudo. Schumann tirara-o do sério, uma vez. A sua amiga pianista fizera um esgar de ódio, ou pior, de indiferença em relação a Schumann e ao seu concerto. Não era virtuoso, não era passional, não era melódico como um Chopin ou transcendente como um Liszt. Era mais do que isso. Era puro vazio. Era a melancolia suave, não despejada nos ouvidos em evidência. Era a simplicidade que mascara o imbróglio existencial, a dúvida sempiterna, o vaguear desnorteado do quotidiano de quem não se sabe nunca. Era uma procura violenta mascarada de bonomia e infantilidade, um lago resplandecente num dia de verão que esconde lamas e corpos nus sufocados nessas lamas. Uma vibração indelével, um trânsito infinito de dúvida, um olhar venenoso de comiseração interior. Schumann era ele, ou a sua música era a sua fome de tempo, ou o seu caminhar sozinho em madrugadas de inverno, por ruas alaranjadas pelas lâmpadas, com correntes de folhas e água suja a embeberem os pés em vazios de si.

Fora ouvir, ao invés, as sonatas de Brahms para violoncelo e piano. Tinha sido o pior curativo, uma sangria violenta para a alma. Durante o concerto surgia o eloquente alentejano, por vezes gaguejando face à inevitável revolta erudita da palavra "reprodubiti... retrodubiti... reprodutilibi... reprodutibilidádi". O anasalado da voz cava deu-lhe um enjoo premente. Não sabia para onde ir. Após o concerto voltou sozinho pelo mesmo caminho.

Nessa noite, ou noutra igual, porém, dissemelhante, descera sob chuva torrencial a rua de S. Marçal. À sua frente, um vulto ágil e disforme contornava a esquina. Viu-se no espelho de uma montra como vulto também, e duvidou, por momentos se aquele que vira a dobrar a esquina não seria ele mesmo, vislumbrado por si, num lapso de tempo. Gelou-lhe o sangue ao ver a rua deserta e saber-se perseguido por estilhaços de mente, pulsões suas em movimento. Parara de chover, mas seguia de guarda-chuva aberto, embrenhando-se na noite sem qualquer réstia de melodias de concertos na mente.

quarta-feira, 6 de março de 2013

ao imbecil a corte sóbria da desistência

Era a chuva outra vez e um chapéu partido. Ou as ruas cheias de gente que o encaravam, ou passavam ao lado e ele pensava que era encarado. Sem rosto, por debaixo dos destroços desse guarda-chuva, sem feições e sem olhar. Apetecia-lhe morrer, devagar.

Hoje tudo nojo, tudo insuficiente, tudo grito em cheio. A quimera dissolvida de uma nova constelação de infinitos. Chorara devagar o tempo. Sabia-se morto com ele, mas ainda renitente, ainda lúgubre, num intermédio estático entre estados desconhecidos.

Comemorara baixinho o aniversário decadente de uma nova era. Essa noite era um resumo de vidas, era nula. E a canção tinha o relevo piedoso de soluços e sal nos olhos. Não se sabia porém observado por todos os anteriores de si, por toda a esfera atónita de medos passados. Queria morrer sem levar consigo nada de mundano, nada de débil, nada de novo.

Foi devagar que entrou na rotina ou se atirou de um sexto andar. Como toda a vida, hesitante, quis-se pequeno, nada heróico e tonitruante. Achou que fumou um cigarro enquanto estava submerso na banheira e que o tinha engolido na surpresa. Degolou o inconveniente de o acharem assim, abafado em água de nicotina, ao não ter dito a ninguém que o iria fazer. A quem o havia de dizer, se o som da sua voz tinha o timbre anelado do bater das asas de uma mariposa, presente e sombrio, e portanto longínquo?

Feliz era chamar-lhe um nome ordinário, um lugar-comum prismado em filosofia barata. Nem Epicuro lhe comprava o cu, nem a sua alma roxa do banho tinha orgasmo suficiente ao ver-se perpetuada em conceitos fabricados por outrém. Tinha-se a si. Talvez ao redescobrir quotidiano da Morte, também, isso achava ele.

Depois disso apenas a janela mascarada de vapor e nuvens domésticas de alma pintadas da luz da manhã.