domingo, 30 de junho de 2013

Julius

Venho no comboio das nove.

Acordo e o guincho profundo desta multidão emparelhada silva-me aos ouvidos. Rápido, um gole de água da torneira, na sua maciez tépida de comiseração. Já é tempo de me abster das vontades, o que digo cai em saco roto, já penso que minto. Talvez perguntem "para onde foi aquele estranho do segundo andar com tão pouco para fazer"? Dentro da minha cabeça ainda soa a voz dessa questão, mas ninguém a pronuncia.

Agora corro ao longo das sebes e para lá disso só o tapete sórdido das queimadas de verão. Num jeito infantil espreito o calor em ondas, mas já não sei quem sou ou como me chamo. Já não sei se serei eu o calor a ondular na incisão demoníaca de um raio de sol. O corte cego de bisturi a baptizar-me com pompa de alma, este olhar submerso tão sem raciocínio. Sou tarde, sol e calor. Cheguei no comboio das nove ao silvar dos campos abertos em ferro para ele. Agora as pessoas escoam-se lânguidas sem me verem nitidamente, correm de volta às casas frescas, inundam-se de água suja só para me cumprimentar.

Enfim, cresço e amo a terra em beijos. Vim para ficar.

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