segunda-feira, 15 de julho de 2013

exercício

- Perdemos a guerra, camarada.
- Mas do que está a falar? Que eu saiba, ainda ontem vinha nos jornais que sim, ganhámos a guerra.
-Sim, mas perdemo-la. Não falo dos inimigos que jazem, nem dos nossos que por lá ficaram. Perdemo-la, ponto. É o que sinto.
- Mas do que está a falar? Que eu saiba, ainda ontem vinham nas nuvens presságios de bom tempo. Aquele laranja fim-de-tarde só pode indicar amor aos fortes que, como nós, vencem as guerras e trazem para casa as cicatrizes para remendar. Vai fazer bom tempo e isso só é já ganhar, não perder. Anime-se, camarada!
- Pois o que eu sei, sem ter ido à guerra, é que a guerra veio até nós das formas mais inesperadas. Aqui fiquei neste banco desde que tudo começou e não há meio de me descolar desta praça. Mas a verdade é que perdemos. Perdemos e sabêmo-lo, mas calamos.
- Mas do que está a falar? Então não ouve as gentes, não lê os jornais, não contempla as nuvens? A guerra terminou e nós vencemos, com muita facilidade até. Somos mais fortes do que pensamos. Não seja assim, camarada. Anime-se e felicite os que aí vêm.
- Se eu me escoar pelo ralo deste firmamento...
- Mas do que está a falar, camarada?
- Era bom se me fizesse vento e o mundo só soubesse o meu nome em segredo.
- Bem, vejo que amanhece... quero dizer, anoitece. A tarde vai longa e ainda me faltam uns quilómetros para a redenção cívica diária. Força, camarada! Até outro dia.
- Ideal seria não ter frases com término. Isso sim, daria romance. E depois os passos que trazem estes dias secos, estes passos dolorosos de tornozelos arranhados, carcomidos, ensaguentados, com calos e bolhas... Ideal seria não ter pés e pensar com eles, mesmo assim. Chamem-lhe flutuar, mas queria esse tacto de manhã sempre a ser meu. Com um arrulhar dúbio de pombos e janelas entreabertas. Isso e mais até, não fosse termos perdido esta estúpida guerra. Maldito calendário, malditas festividades, malditos anos seguidos em fila... Logo este mais maldito, por termos perdido a guerra.
-Mas do que está a falar? Que eu saiba não houve qualquer guerra.