Venho no comboio das nove.
Acordo e o guincho profundo desta multidão emparelhada silva-me aos ouvidos. Rápido, um gole de água da torneira, na sua maciez tépida de comiseração. Já é tempo de me abster das vontades, o que digo cai em saco roto, já penso que minto. Talvez perguntem "para onde foi aquele estranho do segundo andar com tão pouco para fazer"? Dentro da minha cabeça ainda soa a voz dessa questão, mas ninguém a pronuncia.
Agora corro ao longo das sebes e para lá disso só o tapete sórdido das queimadas de verão. Num jeito infantil espreito o calor em ondas, mas já não sei quem sou ou como me chamo. Já não sei se serei eu o calor a ondular na incisão demoníaca de um raio de sol. O corte cego de bisturi a baptizar-me com pompa de alma, este olhar submerso tão sem raciocínio. Sou tarde, sol e calor. Cheguei no comboio das nove ao silvar dos campos abertos em ferro para ele. Agora as pessoas escoam-se lânguidas sem me verem nitidamente, correm de volta às casas frescas, inundam-se de água suja só para me cumprimentar.
Enfim, cresço e amo a terra em beijos. Vim para ficar.
domingo, 30 de junho de 2013
terça-feira, 25 de junho de 2013
3º dia
Ao terceiro acordou tarde.
Tinha um bilhete na mesa de cabeceira. Puxou dos óculos e leu-o em voz baixa. Dizia apenas: "Quem és?" em maiúsculas ridículas. Voltou a colocá-lo onde o achara, intacto. Não iria agora perder tempo com missivas idiotas. Fazia calor e apetecia fugir. Por isso abriu a janela e atirou à vizinha um rasgado bom-dia. Sem ecos. A serra permanecia muda.
Meses mais tardes, a mesma caligrafia. Desta vez, na montra de uma loja de velharias. Entrou, sem saber bem a razão, apenas olhou o suficiente para logo sentir o estômago revolto, o azedo do pó incrustado na língua. Despediu um boa-tarde apressado. Mas em vão, o balcão permanecia vazio.
Ainda agora fechara na mão duas pétalas púrpura de rosa. Comprimira-as para lhes chegar ao sumo. Era tudo o quanto tinha: o punho cerrado e a magreza do rosto. Por mais que tentasse identificar os astros na profundidade da cúpula celeste ainda lhe vinha à memória apenas o nome daquilo que não era. De todo, permanecia calado, e apenas um leve zumbido subia da sua boca. A tarde mais perfeita, o sonho mais vazio, os olhos mais fechados na concavidade forçada de um adeus, tudo isso lhe era ausente.
O restante fazia barulho, e isso irritava-o. Talvez tal explicasse a pedra tumular usada como vestimenta, ou barreira ao toque puritano do zéfiro cantante.
"O meu olhar é textura." Lia-se à porta do bordel. Isso não encerrava filosofia alguma.
Tinha um bilhete na mesa de cabeceira. Puxou dos óculos e leu-o em voz baixa. Dizia apenas: "Quem és?" em maiúsculas ridículas. Voltou a colocá-lo onde o achara, intacto. Não iria agora perder tempo com missivas idiotas. Fazia calor e apetecia fugir. Por isso abriu a janela e atirou à vizinha um rasgado bom-dia. Sem ecos. A serra permanecia muda.
Meses mais tardes, a mesma caligrafia. Desta vez, na montra de uma loja de velharias. Entrou, sem saber bem a razão, apenas olhou o suficiente para logo sentir o estômago revolto, o azedo do pó incrustado na língua. Despediu um boa-tarde apressado. Mas em vão, o balcão permanecia vazio.
Ainda agora fechara na mão duas pétalas púrpura de rosa. Comprimira-as para lhes chegar ao sumo. Era tudo o quanto tinha: o punho cerrado e a magreza do rosto. Por mais que tentasse identificar os astros na profundidade da cúpula celeste ainda lhe vinha à memória apenas o nome daquilo que não era. De todo, permanecia calado, e apenas um leve zumbido subia da sua boca. A tarde mais perfeita, o sonho mais vazio, os olhos mais fechados na concavidade forçada de um adeus, tudo isso lhe era ausente.
O restante fazia barulho, e isso irritava-o. Talvez tal explicasse a pedra tumular usada como vestimenta, ou barreira ao toque puritano do zéfiro cantante.
"O meu olhar é textura." Lia-se à porta do bordel. Isso não encerrava filosofia alguma.
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