domingo, 24 de março de 2013

chopin. opus 70. número 3.

Entrecortou respirações finas com uma lengalenga antiga. Passados escondidos em jogos de meninas, assassinatos permeados pela pleura do mito comum. E eu rasguei-lhe a linha de pensamento. Não hoje. Era tarde e pensar doía, sem respirar porém, porque me sabia übermensch mas só para mudar porcas e parafusos, para dar banhos a gatos e para suster a respiração. Isso, e nada mais, fazia de mim o herói do Largo do Conde Barão, que não era largo, nem o conde era barão.

Ora, propus o enlevo. Um filme com actores já mortos para reconfortar afectos perdidos. Mas alguém se suicidara negligentemente, anteontem. Creio que tinha sido a vizinha de cima; não sabia sequer que tinha vizinha. Penso que confundiu com muita intenção as caixas de medicamentos, ou então correu com bastante vigor, com demasiado vigor, em direcção ao desembocar aberto de uma janela nocturna de sétimo andar. Isso dera-me pouco em que pensar, afinal já sabia há muito que todo o suicídio era uma evidência de involuntariedade. Acontecia, era fenómeno registado pelo olho diagnóstico do médico e da transeunte  testemunha, espectadora pacífica de um seu desenrolar das coisas, pouco fascinada com mortes alheias.
Mas a vizinha, com ou sem espuma na boca, ou ossos esmigalhados, impediu-me de ver o filme e isso fixou-se-me no crânio como se tivesse dormido demasiado tempo e se me tivessem colado os miolos à base côncava da alma. Merda para a correlação forçada da existência. Nós com os outros, nós e os outros; nós bem sentados, discorrendo em ricos e pujantes diálogos que o dia fora de equinócio sem primavera e, de repente, há alguém que sem se voluntariar para dar a mão a Caronte, nos fode a alegria soalheira de nos fodermos para o mundo.

Oh, esqueci-me. Não há, recentemente, Schopenhauer editado em português de Portugal. Quero dizer, o "Mundo como Vontade e Representação" não existe. Ninguém quer ser misantrópico. Ninguém se quer extrair do abraço carnal que nos liga desde o enganchado genético uns aos outros (que outros? na rua vejo não tanto mais mas menos de mim e de tempo em que me sei eu). Por isso a alopécia permite-me cuspir na cara do próximo pobre andante que me consumir o olhar no passeio; inaugurar luso de uma obsoleta ode ao desencantamento de existir; irónicas elegias ao fedor de merda quente com que me levanto todos os dias, me coço enigmaticamente, e me deito em seguida, rangendo dentes ou cantarolando aquela passagem da valsa de Chopin que me lembra um abandonar de adeuses sorridentes.

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