quarta-feira, 6 de março de 2013

ao imbecil a corte sóbria da desistência

Era a chuva outra vez e um chapéu partido. Ou as ruas cheias de gente que o encaravam, ou passavam ao lado e ele pensava que era encarado. Sem rosto, por debaixo dos destroços desse guarda-chuva, sem feições e sem olhar. Apetecia-lhe morrer, devagar.

Hoje tudo nojo, tudo insuficiente, tudo grito em cheio. A quimera dissolvida de uma nova constelação de infinitos. Chorara devagar o tempo. Sabia-se morto com ele, mas ainda renitente, ainda lúgubre, num intermédio estático entre estados desconhecidos.

Comemorara baixinho o aniversário decadente de uma nova era. Essa noite era um resumo de vidas, era nula. E a canção tinha o relevo piedoso de soluços e sal nos olhos. Não se sabia porém observado por todos os anteriores de si, por toda a esfera atónita de medos passados. Queria morrer sem levar consigo nada de mundano, nada de débil, nada de novo.

Foi devagar que entrou na rotina ou se atirou de um sexto andar. Como toda a vida, hesitante, quis-se pequeno, nada heróico e tonitruante. Achou que fumou um cigarro enquanto estava submerso na banheira e que o tinha engolido na surpresa. Degolou o inconveniente de o acharem assim, abafado em água de nicotina, ao não ter dito a ninguém que o iria fazer. A quem o havia de dizer, se o som da sua voz tinha o timbre anelado do bater das asas de uma mariposa, presente e sombrio, e portanto longínquo?

Feliz era chamar-lhe um nome ordinário, um lugar-comum prismado em filosofia barata. Nem Epicuro lhe comprava o cu, nem a sua alma roxa do banho tinha orgasmo suficiente ao ver-se perpetuada em conceitos fabricados por outrém. Tinha-se a si. Talvez ao redescobrir quotidiano da Morte, também, isso achava ele.

Depois disso apenas a janela mascarada de vapor e nuvens domésticas de alma pintadas da luz da manhã.

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