sexta-feira, 8 de março de 2013
amor fati
Acordara com o som da voz indolente de um alentejano a murmurar o título de Walter Benjamin com sotaque carregado. "A Obrã de Arti na Erã da Reprodutibilidáde Técnicã"! E vezes sem conta a voz lhe trouxera o título à cabeça durante o dia. Pediu a uma conhecida, alentejana, que lhe dissesse também o título do ensaio de Benjamin com sotaque. Ela achou que ele estava simplesmente a gozar com as suas origens e virou-lhe costas com um idiossincrático orgulho meridional nesse gesto.
Estivera a ouvir uma vez mais o concerto de Schumann para piano e orquestra, e debatera as qualidades e defeitos entre Schumann e Chopin. Definitivamente Schumann seria o seu predilecto, para sempre. Os contornos do vazio na sua obra ultrapassavam qualquer momento histórico, qualquer laivo romântico de passionalidade. Schumann era a loucura contemporânea em potência, um devir mais obscuro do que todos os outros devires, o incerto, o derradeiro não crer em nada, esperar tudo. Schumann tirara-o do sério, uma vez. A sua amiga pianista fizera um esgar de ódio, ou pior, de indiferença em relação a Schumann e ao seu concerto. Não era virtuoso, não era passional, não era melódico como um Chopin ou transcendente como um Liszt. Era mais do que isso. Era puro vazio. Era a melancolia suave, não despejada nos ouvidos em evidência. Era a simplicidade que mascara o imbróglio existencial, a dúvida sempiterna, o vaguear desnorteado do quotidiano de quem não se sabe nunca. Era uma procura violenta mascarada de bonomia e infantilidade, um lago resplandecente num dia de verão que esconde lamas e corpos nus sufocados nessas lamas. Uma vibração indelével, um trânsito infinito de dúvida, um olhar venenoso de comiseração interior. Schumann era ele, ou a sua música era a sua fome de tempo, ou o seu caminhar sozinho em madrugadas de inverno, por ruas alaranjadas pelas lâmpadas, com correntes de folhas e água suja a embeberem os pés em vazios de si.
Fora ouvir, ao invés, as sonatas de Brahms para violoncelo e piano. Tinha sido o pior curativo, uma sangria violenta para a alma. Durante o concerto surgia o eloquente alentejano, por vezes gaguejando face à inevitável revolta erudita da palavra "reprodubiti... retrodubiti... reprodutilibi... reprodutibilidádi". O anasalado da voz cava deu-lhe um enjoo premente. Não sabia para onde ir. Após o concerto voltou sozinho pelo mesmo caminho.
Nessa noite, ou noutra igual, porém, dissemelhante, descera sob chuva torrencial a rua de S. Marçal. À sua frente, um vulto ágil e disforme contornava a esquina. Viu-se no espelho de uma montra como vulto também, e duvidou, por momentos se aquele que vira a dobrar a esquina não seria ele mesmo, vislumbrado por si, num lapso de tempo. Gelou-lhe o sangue ao ver a rua deserta e saber-se perseguido por estilhaços de mente, pulsões suas em movimento. Parara de chover, mas seguia de guarda-chuva aberto, embrenhando-se na noite sem qualquer réstia de melodias de concertos na mente.
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