segunda-feira, 18 de março de 2013

opus 117 nº2


Olha aí, plácido, a poesia no vão de escada.

Se me voltei a tempo de soerguer peneiras ante sois cruéis, evitei o olhar persistente de um enteado da vida.

Cumprir a obrigação, rolha estúpida de um cisma, ser sempre folha branca.

Baixinho, os três intermezzi. Baixinho. Calado murmúrio. Pode ser o Glenn Gould, baixinho. Paro então no segundo, sinto-me tirar os sapatos e contemplo uma janela que o enquadramento não alcança, atrás um fundo branco, eu sentado num divã invisível, e calo o ofegar, boca entreaberta. Olho o que está além. Olho fora do enquadramento. Olho o segundo intermezzo Op.117. Olho os dedos do Gould mais ligeiros do que seria de esperar, mas é o Gould, porra!, dele nada é de esperar, porque tudo. Olho mas não contemplo, a câmara sai de mim e passa para a rua, já não sou eu no ecrã dentro dos meus olhos. Olho em si mesmas as sobras do eterno, para lá do enquadramento, o inevitável mutável estrangulamento de um outro real, convexo, paralítico em sons e vazios. Olho onde estava esse olhar. Se falei baixo os vizinhos ouviram e não notaram que era em si bemol menor. Para a merda com os vizinhos. Rasgaram a foto. Pararam o Gould quando descobriram, sorriso putrefacto, incerto cadáver.

Ou isso, ou aquilo; ou isto, ou aquilo; de qualquer forma o ser e o seu contrário não existem. Nada. Arrepender-te-às. Sempre.

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