sexta-feira, 29 de março de 2013

ridículo desnudar da têmpora morta

Se ouvir o ruído de alguém, no quarto ao lado; bem, choro.

Se me vir reflectido no espelho em tom atravessado; calo o pontilhismo percepcionado do viver dia-a-dia com cara vaga e buraco existencial na ponta dos dedos. Furo calos, rio. Furo olhos, rio. Furo tempos, morro.

Se beber das águas do Lete; beber e a indigestão não passar como passaria com águas do Mondego, enxergarei então, supremo, existências de mim espectrais, com jocosos semblantes, ou patéticos, porque o tragicómico revela-se barato, enformado em lata, descartável. Sou eu em pedacinhos, um aborto cuspido na parede branca. E eis com que arte, com que rigor, com que sobriedade a mancha calma se dissolve pela tarde, escorrendo ao som calmo de um andante de Bach pelas frinchas do rodapé.

Se Virginia não souber, nunca, o que é a mancha na parede. Se os dias forem dessa mancha como dela, todos. O desvelo dado ao insensível desconhecido, mais terno que todos os anteriores carinhos, esse da aproximação intelectual pela divagação, pela supressão dos descontínuo do chão e dos caminhos de terra batida. Sem passos, sem desígnios, vamo-nos acercando da mancha como de nós, sem lhe alcançarmos âmago algum, essência nenhuma de presenças, não mais do que a nossa inútil dinâmica de alma.

Existe, na noite, a perseguição exangue de um corpo que se soube tomado outrora. Pertenceu-nos esse lugar que julgáramos ocupado à nascença, mas num outro passado, numa saudade que foi de outrém mas que hoje nos puxa a pele do medo, do nosso medo, dilatado em veias e pulsões de febre e espuma. Coisa nossa.

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