sexta-feira, 15 de março de 2013
sub-reptício lunar ou Metropolis Unveiled
Hoje como ontem, não foi o futuro suspenso na ponta dos dedos, as esfinges de medo colapsadas em areia sobre a multidão. Foi talvez o enigmático sentido do dever amoroso, de nos benzermos diariamente em certezas nossas, amores-próprios evidentes. Não hoje, como ontem, mas hoje e ontem, eu cego e difuso, à luz da tarde. Um sem fim de passos e eu sentado, sem desvelos da vida diária. Sofrer torna-se respirar lentamente, baixinho. Pensar nessa respiração como nossa ou de outrém. Devagar encher os poros subluminosos de ar enrouquecido, gasto, rarefeito mas pesado, fino e sobretudo entediante. Não haver forma de não respirar, e portanto, não ser. Evidentemente.
Não sei o que me traz a ser o eu como fui. Hoje tenho portas fechadas à minha volta.
Em animada cavaqueira com o Fritz Lang, num dialecto supra-temporal, concordei com ele. "Sim, sim. É isso!" Decidiu dar a minha cara a um monstro mecânico, e eu disse "Sim, sim. É isso!", meio orgulhoso, numa adrenalina mal contida, mas também meio entediado por saber-me cara e monstro nessa cara, não sei em que filme, ou em que futuro, ou em que sonho.O Fritz pôs-me nessa tina gigante, com cordões de aço que nos cobrem em três pontos, e de súbito lembrei-me de Kierkegaard, não sei porquê. Andava a ler o "Ou-Ou" e aparecia uma referência a um deus do mal aprisionado pelas tripas do filho em três pontos: ombros, cintura e joelhos, se bem me lembro. Senti-me esse deus do mal, Loke, sob uma serpente gigante que babava veneno descontroladamente. Mas o Fritz, vendo a minha expressão meio sumida, um tédio mais forte que todos os tédios, animou-me, "Ouve, não dói nada, e vais ter mais de ti do que alguém teve." Eu chorei sem saber que chorava, talvez fosse a horizontalidade e o síndrome dos fluxos que precipitaram as pequenas lágrimas que se escaparam pelo rosto abaixo. Não me sabia melhor ou pior ali dentro, naquela cápsula de devires e desejos. Tanta vida a ser criada, e só queria que mais uma não fosse a minha.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário