sábado, 9 de março de 2013

skatós/éskhatos

Cheirou-me ao incenso do ridículo. Quando olhei soube que o que tinha pago para ver e ouvir era merda.

Fiquei. Ouvi dizer a um sábio qualquer que comer merda também era desígnio divino. Acabava por ser sempre assim todos os dias. Por isso, diletante das paixões que me tornavam um convicto intelectual versado em bichanices e contos para curar conas secas, permaneci sentado, no ruge-ruge que um coçar de nádegas condescende.

Sabia que estava condenado a ser execrado, excomungado, ostracizado e enforcado em praça pública. Talvez me cortassem os tomates, se os tivesse, com um puxar pelo pedúnculo com mãos de menina inocente, assim ritualizada nos iniciáticos eventos de uma dona de casa. Talvez me espetassem uma horrenda courgete pelo canal lacrimal, repuxando da pútrida frieza a dúctil compaixão, com a salutar absolvição vitamínica que contempla o ser vegetal.

Regurgitei devagarinho, dando-me ao prazer de mascar pedacinhos vagos de mim, pedacinhos da inércia com que os rios se espelham de manhã e que o sol frouxo da primavera descobre lentamente, a inútil vontade de chegar, esse vento calmo que cheira a lixo, ao adocicado do podre contaminar, às revelações abraãmicas da exaltação do fim dos tempos, tudo numa gaveta com cheiro a peúgas usadas consecutivamente.

Escatológico refere-se tanto à merda como ao apocalipse. Pode ser um apocalipse de merda, ou uma merda de apocalipse, quem sabe? No meu reduto, sou suficientemente deus para me abrir com discricionariedade, sem acertar constituições com os três estados. Comerei de mim em substância, e ignóbil recolherei na concha pedaços do que de pristino cai dos ventres maternos em expulsão.

Sem comentários:

Enviar um comentário