sábado, 16 de março de 2013

Oculum pro oculo


Foste ríspido ao gritar e eu vazei-te um olho.

Algures, escondido nas gavetas da secretária velha está a recordação vazia de um jogo infame. Por cima de um céu de chumbo retine mercúrio ao sol, escorre pelas nossas bocas, humedece corações de senhoras empedernidas, e desfaz, com dedos enlevados, cérebros sozinhos, regurgitações profícuas que nos dá o quotidiano.

Eu vi-te sem sombra, ou olhei o espelho e julguei-me subitamente nevoeiro transposto. Do túmulo recôndito da hora sucede um cheiro forte de maresia e de noivas mortas. Beijos plácidos na manhã, a uma loucura um ramo de flores. Quando damos por nós, eu por ti, e tu por mim, está Rousseau de joelhos, chora e no seu ranho escreve que perdeu a fé na besta natural.

Chamaste-me um nome; nefelibata, creio. Gritaste-me: "Filho da puta!". Acho que vai dar ao mesmo, e as redundâncias sempre me estreitaram o espírito, trucidaram a passividade anã que me anima, e respondi-te.

Foste ríspido ao gritar e eu vazei-te um olho.

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