sexta-feira, 5 de abril de 2013

Alto dos Moinhos

Ouvi (ouviu?) ao longe, no fundo da atmosfera, coros. Renascentista prosseguiu (prossegui?) pela estrada molhada julgando estar perto do fim, aparições ao cair da noite, anjos que nos (me?) ecoam nos ouvidos, a torrente de espectros, nuvens satânicas ou emanações sulfúricas a dar de roer ao dente, mas celeste o contentamento, divina a golfada do vento húmido. Coros. Ignomínia, maravilha dos coros. Se fosse Palestrina, se fosse... talvez seja. Talvez hoje Palestrina, ou Duarte Lobo tardio, ou Magalhães e o fim do renascimento e das catedrais. O fim pintado de gomos de luz no escuro. Calmo caminho e outra vez o ressoar na maresia. Coros. Ou o ruído difuso do comboio que canta, asa de aço na noite, relincho mavioso, a filarmonia do ferro eléctrico pujante.

E ao subir a rua deparo-me com o oceano que cai em maré vermelha. Afinal, sereias aladas que debicam marinheiros, afinal neve derretida em lama da minha alma, afinal vós mentistes. O eco do meu intento, a vontade julgada viva, até mesmo escutada em vislumbre, era um último aceno, a despedida ao adepto. Tinha acabado o jogo do Benfica.

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