Oh diabo, que hoje era o teu dia de anos e ainda nem te tinha escrito o postal do costume!
Oh diabo, a coisa insólita a mover-se larva incandescente dentro do magma morno da era glacial que ainda não findou! Oh coisa sombria, o aperto de intestino quando nos sua a testa e há um rumor de chuva no ar e... ah, estala o foguete que nós nunca aceitáramos ser da nossa freguesia apenas porque o iam lançar do alto daquele eucaliptal, já longe da extensão dos nossos dedos e da nossa compostura de nome atarracado de terra só no marasmo de um monte.
Oh, fantasia de Carlos Filipe Emanuel Ribeiro!
Oh, destino de burro escorraçado ao som de Schubert, sonata número vinte, andantino!
Oh, maledicência de bruxas de sextas-feiras nocturnas de meia rendada e cigarrilha apertada no amarelo cosido aos dentes!
Oh, vil memória, sem brumas nem egrégios avós, que só não me traz o dia dos teus anos sem grão na fotografia! Tudo, tudo menos isso, os teus anos com o teu bolo acetinado contra os queixos já cheios de fios de ovos quanto baste e o meu postal, com o verso que tanto me custou destilar da tinta permanente já sem caneta, o meu postal esquecido debaixo da cadeira onde agora se deitou solene e despreocupado o cão. Não ladra, nem recita o que lhe vai no peito. Antes acho que nos escuta, atento, e chora para dentro, por não ter quem lhe escreva postais destes, gastos com palavras tão antigas escritas ainda há duas horas.
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